Flores do Campo
João de Deus




João de Deus

FLORES DO CAMPO





EMBLEMA



Camões e Byron— Scepticismo e Crença

		Vem d’alto gozar, lirio!
		Noite estrellada e tepida;
		A vista ao céo intrepida
		Lança, penetra o Empyreo.

		Dilata os seios tumidos;
		Larga este terreo albergue;
		Nas azas d’alma te ergue;
		Ergue os teus olhos humidos

		Que vês?– Soes, de tal sorte
		Que os crêra tochas pallidas,
		Quando as guedelhas, madidas
		De sangue, arrasta a morte.

		– Transpõe-n’os; que, elevando-te,
		Por cada um d’aquelles,
		Milhões e milhões d’elles
		Verás alumiando-te.

		Ávante pois, acima
		Dos soes d’uma luz tremula;
		Alma dos anjos emula!
		Deus o teu vôo anima.

		Que vês?– Um vacuo eterno.
		– E n’elle?– Em ermo tumulo,
		Em ignea letra (cumulo
		D’horror) Byron— o inferno.

		– Foge.– O horror fascina-me.
		São reprobos que exhalam
		Horridos ais que abalam
		O inferno: oh Deus! anima-me.

		– Escuta-os.– Escutemol-os.
		Como elles bramem, rugem,
		E o espaço uivando estrugem…
		Gelam-se os membros tremulos.

		– Entra.– Não posso.– Arromba.
		– Prohibem-m’o.– Subleva-te.
		– Prohibe-o Deus.– Eleva-te.
		Acima, ingenua pomba!

		Que vês? A luz clareia-me.
		Que céo, que azul ethereo!
		Oh extasi, oh mysterio!
		Sobeja a vida, anceia-me.

		– Falla.– Deus! que harmonia!
		Aqui a alma exalta-se;
		A alma aqui dilata-se…
		Camões!– É a poesia.

Coimbra.




A UMA CARTA ANONYMA


		Não sabe a flôr quem manda a luz do dia,
		Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita
		Ao vir raiando a aurora,
		E ella agradece as lagrimas que aceita,
		E ella as converte em balsamos que envia
		zAo mysterio, que adora.

Lamartine.

Coimbra.




DUAS ROSAS


		Que bonita, meu amor!
		Que perfeita, que formosa!
		A ti pozeram-te Rosa,
		Não te fizeram favor.
		A rosa, quem ha que a veja
		Bandeando, sem gostar?
		Mas por mais linda que seja
		A rosa, quando se embala,
		Não te ganha nem iguala
		A ti em indo a andar.

		A rosa tem linda côr,
		Não ha flôr de côr mais linda;
		Mas a tua côr ainda
		É mais fina e é melhor.
		Murcha a rosa (que desgosto!)
		Só de lhe a gente bulir;
		E essas rosas do teu rosto
		É em alguem te tocando
		Que parece mesmo quando
		Ellas acabam de abrir.

		Cheiro, o da rosa, esse não,
		Não é mais do meu agrado,
		Que o teu bafo perfumado,
		A tua respiração.
		Depois a rosa em abrindo
		Vai-se-lhe o cheiro tambem:
		A tua bocca em te rindo
		Só o bom cheiro que exhala…
		E quando fallas, a falla,
		Isso é que a rosa não tem.

		Ella o que tem, meu amor?
		O cheiro, a côr e mais nada.
		Confessa, rosa animada!
		Que és outra casta de flôr.
		Os olhos só elles valem
		Duas estrellas, bem vês;
		Pois vozes que a tua igualem
		Na doçura, na pureza,
		Na terra, não, com certeza;
		Agora no céo, talvez.

		Não ha assim perfeição,
		Não ha nada tão perfeito,
		Mas é um grande defeito
		O de não ter coração.
		N’isso é que te leva a palma
		A rosa, sendo uma flôr
		– Sem voz, sem vida, sem alma,
		Que abre logo á luz da aurora
		E á noite esconde-se e chora
		Pelo sol, o seu amor.

		Ora e se a rosa, vê bem,
		Tem amor, não tendo vida,
		Será coisa permittida
		Tu não amares ninguem?
		Suppões que Deus te agradece
		Essa isenção, minha flôr!
		Deus a ninguem reconhece
		Por filho senão quem ama:
		A terra e o céo proclama
		Que elle é todo puro amor.

Messines.




A UMA MULHER


		Amo-te a ti, e a Deus.
		Teus sonhos são riquezas
		Talvez e fasto. Os meus,
		És tu, que me desprezas.

		Deixal-o. Amor acaso
		É racional? Não é.
		O fogo em que me abrazo
		É como a luz da fé;

		Que além de cega, apaga
		O facho da razão.
		Ama-se e não se indaga
		Se se é amado ou não.

		Amo-te. O mais ignoro.
		Mas os meus ternos ais
		E as lagrimas que chóro
		Podem dizer o mais.

		Que chóro; se te admira.
		Nunca tiveste amor.
		Quem tem amor, suspira,
		E o suspirar é dôr.

		Ah! quando abraço e beijo
		O travesseiro e, assim,
		Acórdo e te não vejo,
		Vejo-me só a mim;

		Não sei, mulher! que anceio
		Se me traduz n’um ai!
		Confrange-se-me o seio,
		Rebenta o pranto e cái.

		Então, se por encanto
		Fallando em ti, mas só,
		Todo banhado em pranto
		Me visses, tinhas dó.

		Tinhas. A piedade
		É filha da mulher,
		Que sempre quiz metade
		D’uma afflicção qualquer.

		Havias ao teu rosto
		De me apertar a mim,
		D’encher, fartar de gosto,
		Todo este abysmo; sim.

		Vós desprezaes embora
		Culto e adoração
		De quem vos ama; agora
		As dôres, essas não.

Messines.




A D. CANDIDA NAZARETH


Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi


		Despe o luto da tua soledade
		E vem junto de mim, lirio esquecidox
		Do orvalho do céo!
		Tens nos meus olhos pranto de piedade,
		E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
		Mulher! sou irmão teu.

		Consolos não te dou, que não existe
		Quem de lagrimas suas nunca enxuto
		Possa as d’outro enxugar:
		Não póde allivios dar quem vive triste,
		Mas é-me dôce a mim chorar se escuto
		Alguem tambem chorar.

		Botão de rosa murcho á luz da aurora!
		Que peccado equilibra o teu martyrio
		Na balança de Deus?
		Se é como justo e bom que elle se adora
		Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio,
		E em lirio os labios teus?

		Não enche elle de balsamos o calix
		Da flôr a mais humilde, e esses espaços
		Não enche elle de luz?
		Não veio o Filho seu, lirio dos valles!
		Só por amor de nós tomar nos braços
		Os braços d’uma cruz?

		Mulher, mulher! quando eu n’um cemiterio
		Levanto o pó dos tumulos sósinho:
		Eis, digo, eis o que eu sou.
		Mas quando penso bem n’esse mysterio
		Da virtude infeliz: vai teu caminho;
		Dois mundos Deus creou.

		Deus não dispara a setta envenenada
		Á pombinha que aos ares despedira
		Com mão traidora e vil.
		Imagem sua, Deus não volve ao nada,
		Não aniquila a flôr que ao chão cahira
		Lá d’esse eterno abril.

		Has-de, cysne! expirando alçar teu canto,
		Has-de lá quando a lua da montanha
		Te acene o extremo adeus,
		Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto,
		No oceano d’amor que as almas banha,
		Unir teu canto aos seus.

		Seus, d’ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas
		D’um só jacto de terra… oh desventura!
		Oh destino cruel!
		Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
		Guiando-se uma á outra á sepultura,
		E a mãi: Rachel! Rachel!

Coimbra.




AMOR


		Amo-te muito, muito.
		Reluz-me o paraiso
		N’um teu olhar fortuito,
		N’um teu fugaz sorriso.

		Quando em silencio finges
		Que um beijo foi furtado
		E o rosto desmaiado
		De côr de rosa tinges;

		Dir-se-ha que a rosa deve
		Assim ficar com pejo,
		Quando a furtar-lhe um beijo
		O zephyro se atreve;

		E ás vezes que te assalta
		Não sei que idéa, joven!
		Que o rosto se te esmalta
		De lagrimas que chovem;

		Que fogo é que em ti lavra
		E as forças te aniquila,
		Que choras, mas tranquilla,
		E nem uma palavra?

		Oh! se essa mudez tua
		É como a que eu conservo,
		Lá quando á noite observo
		O que no céo fluctua;

		Ou quando, á luz que adoro,
		Ás horas do infinito,
		Nas rochas de granito
		Os braços cruzo e chóro;

		Amamo-nos… Não cabe
		Em nossa pobre lingua
		O que a alma sente, á mingua
		De voz, que só Deus sabe.

Coimbra.




A DONZELLA E O MUSGO


		Um dia, não sei que eu tinha…
		Uma tristeza tamanha!
		E lembra-me ir á montanha,
		Que temos aqui vizinha,
		Onde em tempo me entretinha
		Horas e horas sósinha
		Quando ainda se não estranha
		Que n’uma teia de aranha
		Se prenda uma innocentinha,
		Ou atraz d’uma avesinha
		Se cance a vêr se a apanha.

		Depois é que o mundo falla
		E se mette com a vida
		De quem ás vezes se cala
		Por ser mais bem procedida.
		Que esta gente que faz gala
		Em coisa, que vê, contal-a,
		E sendo mal permittida
		Inda em cima acrescental-a,
		Teem a lingua comprida
		E bem deviam cortal-a.

		Vou pelo córrego acima,
		Subo á ponta do penedo;
		Que a vida só quem a estima
		É que da morte tem medo.
		A mesma tristeza anima
		A encarar a pé quedo
		A morte que se aproxima
		A tirar-nos do degredo,
		Que inda a gente se lastima
		De não acabar mais cedo.

		E alli sósinha chorando
		Me lembrava, ora a ventura
		Da minha infancia, inda quando
		Levava os dias brincando;
		Ora a desgraça futura,
		Que me estava annunciando
		Não sei se a minha amargura,
		Se uma nuvem, grande e escura,
		Que se ia no ar formando
		E vinha já avançando,
		Como que á minha procura.

		E ainda o pranto corria
		E o cabello me batia
		No rosto, que me doía,
		Tal era a força do vento;
		Já tudo tão pardacento
		A nevoa e chuva fazia
		Que eu olhava, mas dizia:
		É nuvem ou penedia
		Aquelle vulto cinzento?
		O mar brilhante algum dia
		Como prata luzidia
		Já ninguem o distinguia
		Da terra e do firmamento:
		Uivar só é que se ouvia,
		Mas uivar sem sentimento;
		E como em grande tormento
		Se desvaira a phantasia:
		– Fosse eu mar, disse; valia
		Mais ser coisa bruta e fria,
		Como a rocha onde me sento.

		Faz um trovão no momento
		Que soltava esta heresia;
		E áquella rouca harmonia
		Occorre-me um pensamento,
		Que me dá uma pancada
		O coração de tal modo,
		Como se o rochedo todo
		Desandasse na chapada.

		Era a voz da consciencia
		Que me accusava do crime
		De negar á Providencia
		A razão com que me opprime.
		Peço perdão, commovi-me
		E n’um extasi sublime
		Lagrimas de penitencia,
		Como um balsamo, uma essencia,
		Purificam-me e senti-me
		Com uma nova existencia.

		Ólho; as nuvens esvaíam-se:
		Os roncos do mar ouviam-se,
		Mas já mais de espaço a espaço.
		O sol ainda tão baço,
		De luz tão pouco brilhante,
		Que se media a compasso
		Como a cara d’um gigante,
		Descobre-se e resplandece!
		Ao longe o mar apparece;
		E tudo, mar, terra e céos
		Tão formoso me parece,
		Como se agora tivesse
		Sahido das mãos de Deus!

		No rochedo onde descança
		Meu corpo desfallecido,
		O verde musgo, vestido
		Sempre da côr da esperança,
		Agora reverdecido,
		Me ensina a ter confiança
		N’esse que do céo nos lança
		Em dia tempestuoso,
		Só para nosso repouso
		O arco da alliança.

		Pobre musgo, descuidado,
		Sem olhos para chorar,
		Sem poder alliviar
		Com seu pranto um desgraçado,
		Consolar-se e consolar!
		Fallas mais a meu agrado
		Que o livro mais afamado
		D’esses livros, que em lugar
		De nos dar consolação,
		Nos fazem cahir no chão
		Um pranto mal empregado,
		E inda mais amargurado
		Nos deixam o coração.

		Colhi-o, pul-o no seio,
		E é hoje o livro que leio.

Messines.




ULTIMO ADEUS


		Prestes, se inda na rocha de granito
		D’onde em tempo me vias te sentares,
		Não olhes para a terra ou para os mares,
		Olha sim para o céo, que é lá que habito.

		Lá tão longe de ti, mas não do terno,
		Bondoso pai que os dois nos ha gerado,
		Só para mágoas não, que bem guardado
		Nos tem tambem no céo prazer eterno.

		Não se é só pó no fim de tanta mágoa.
		Senão, diga-me alguem que allivio é este
		Que sinto, quando á abobada celeste
		Alevanto os meus olhos rasos d’agua.

		Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.
		Feras, tigres, tambem o céo povôam?
		Tambem os labios lá sorrindo côam
		Veneno desleal em beijo amigo?

		Mas na dôr é que os astros nos sorriem,
		E os homens não sorriem na desdita.
		Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
		Que os infelizes sempre em vós se fiem.

		Intima voz do fundo, bem do fundo
		D’alma me diz (e as lagrimas me saltam):
		Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam?
		Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo.

		Ha depois d’esta vida inda outra vida.
		Não se reduz a nada um grão d’arêa,
		E havia de a nossa alma, a nossa idêa
		Nas ruinas do pó ficar perdida?

		– Isso que pensa e quer (até me admiro),
		Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva,
		Isso que me abre o céo que ao céo me eleva
		N’um teu cançado olhar, n’um teu suspiro!

		Onde, não sei eu bem, mas sei que existe
		Deus remunerador. Depois de mortos
		Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos
		Fartar de glorias este amor tão triste.

		– Tão triste, e o coração que me adivinha
		N’este supplicio nosso este tormento!
		Nunca dos labios teus minimo alento
		N’um só beijo bebi em vida minha!

		E morro sem te vêr! Cabeça doida,
		Desasisado amor! Sonhar afflicto
		Um sonho até morrer… Não: resuscito;
		Morto tenho eu vivido a vida toda.




ROSAS


		Trazeis-me rosas; d’onde as heis trazido,
		Boa velhinha e minha boa amiga?
		Rosas no inverno! permitti que o diga,
		Sois feiticeira: d’onde as heis colhido?

		Na primavera de meus annos, ólho,
		Mas vejo abrolhos e não vejo flôres:
		E vós colhêl-as, como as eu não colho…
		Sois feiticeira— enfeitiçaes d’amores.

		Enfeitiçaes que a formosura, crêde,
		Não vem da face avelludada e bella;
		A formosura vem só d’alma; é d’ella
		Que brota a fonte que nos mata a sêde.

		Vós sois velhinha, já não tendes côres
		Que o rosto animem e que os olhos prendam,
		Mas tendes prendas que o amor accendam,
		Tendes ainda no inverno… flôres.

Evora.




ROSA E ROSAS


		A Rosa trouxe-me rosas
		E nada mais natural,
		Mas eu prendas tão mimosas
		É que não tenho; inda mal.

		Quando tinha, se me désse,
		Não digo mais que uma flôr,
		Talvez de flôres lhe enchesse
		Esses cofrinhos d’amor.

		Aguas passadas, Rosinha!
		Deixal-o; veja se vê
		N’este chão que já foi vinha
		Coisa que ainda se dê.

		Veja e escolha. Está na mesa
		O que ha em casa; é tirar
		– Tirar com toda a franqueza;
		Inda hão-de espinhos sobrar.

		Mas se espinhos, mas se abrolhos
		Lhe não agradam, amor!
		Mire-se bem nos meus olhos,
		Que ha-de ahi vêr… uma flôr.

Evora.




A HERMANN



Por occasião d’um beneficio a um asylo

		«Conchega a mãi ao peito o filho caro;
		Estende a pomba as azas no seu ninho
		Pelos filhinhos seus.
		Embala o arbusto agreste; o fructo amaro.
		Guia a bussola o nauta em seu caminho,
		Como um dedo de Deus.

		«Bebe a nuvem no mar, no rio a fera;
		Acha o tigre covil na antiga Hyrcania,
		Hoje em dia, Ghilã;
		Renasce a planta á luz da primavera,
		E no calix da flôr gotta espontanea
		Cahe á luz da manhã.

		«Só eu no mundo um gosto em vão pretendo:
		Guebro entre os persas, entre os indios pária,
		Judeu entre christãos,
		Só eu debalde ao céo as mãos estendo,
		Como o naufrago á praia solitaria
		Debalde estende as mãos.

		«Tenho no livro azul onde Elle escreve
		Esse nome, que nunca pronuncia
		Quem bem o soletrou,
		Mil vezes tenho lido que não deve
		Queixar-se mais que a flôr que vive um dia
		Um verme como eu sou.

		«Porém, chorando, as mágoas diminuem.
		Custa muito soffrer sem que um gemido
		Ah! solte a nossa dôr.
		E se aos olhos as lagrimas affluem,
		É que este allivio nosso é permittido.
		O céo orvalha a flor.»

		Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem,
		Como os suspiros de harpa eolea em ermo.
		Ninguem no mundo o ouviu.
		Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem,
		Tocou a mão de Christo a mão do enfermo;
		O Lazaro surgiu.

		Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo
		Nos prodigios da milagrosa vara
		Que o Senhor Deus te deu.
		Teu coração, Moysés do christianismo!
		Tua alma é que eu admiro, e te invejára
		Se o que é teu… fosse teu.

Coimbra.




PRESENTIMENTO


		Emilia! não vês a lua
		Como vacilla e fluctua,
		Ora avança, ora recúa,
		E não ha passar d’alli?
		Tu és a imagem d’ella;
		És tão sympathica e bella,
		Meiga e timida, que ao vêl-a
		Me lembra sempre de ti!

		Tu és o botão de rosa
		Que abraçado á mãi formosa
		Só folga, só vive e goza
		N’aquella triste união;
		Treme até de ouvir a aragem
		Passar por entre a folhagem:
		Emilia! tu és a imagem
		Do mais timido botão.

		Mas embora: o tempo gira.
		Um dia o botão, que aspira
		O ar da manhã… suspira
		E levanta o collo ao céo:
		Vê vir raiando a aurora,
		Abre o seio á luz que adora,
		Correm-lhe as lagrimas, chora…
		Chora o tempo que perdeu!

		Porque elle, Emilia! não teme
		Que a luz da aurora o queime;
		Elle suspira, elle geme
		Por vêr a luz que o creou.
		Nem tambem a lua pára:
		Se algumas vezes repara
		N’uma nuvem menos clara,
		É um momento e… passou.

		Não ha existencia alguma
		Que não tenha amor; nenhuma;
		Porque o amor é, em summa,
		Essencia de todo o sêr.
		Ha sempre quem nos attráia.
		Mil vezes que a onda cáia,
		Ha uma rocha, uma praia
		Aonde a onda vai ter.

		Tu andas já presentida
		D’essa voz que te convida
		A encetar n’esta vida
		Ai! uma vida melhor…
		E em breve desenganada
		D’essa existencia isolada,
		Darás n’alma franca entrada
		A sentimentos de amor!

Silves.




MARINA





I. APPARIÇÃO


		Como esse olhar é dôce!
		Dôce da mesma sorte
		Como se nunca fosse
		Toldado pela morte:

		Como se alumiasse
		O sol ainda em vida
		As rosas d’essa face…
		Agora carcomida.

		Colhesse-as eu mais cedo
		E logo que alvorece;
		Já não tivesse medo
		Que a terra m’as comesse.

		Mas pura, como a neve
		Que ás vezes cahe na serra,
		É que a nossa alma deve
		Tambem voar da terra.

		Gelasse a morte fria
		A mão profanadora
		Que te ennublasse um dia
		A luz que dás agora.

		É n’essa côr tão linda,
		Rosa da madrugada!
		Que sinto a alma ainda
		Andar-me enfeitiçada.

		Se um dia nos meus braços
		Te desbotasse as côres,
		Passavam os abraços…
		Passavam os amores!

		Oh! não: mil vezes antes
		No céo lá onde habitas,
		E os rapidos instantes
		Que vens e me visitas

		N’este degredo nosso,
		Que tanta gente estima,
		E eu, só porque não posso,
		Não largo e vou lá cima.

		Vem tu cá baixo, abala,
		Deixa em podendo o collo
		Tão terno que te embala,
		E vem-me dar consolo.

		Como essa imagem pura
		Ah! sobrevive ao nada
		E escapa á sepultura,
		Tão fresca e perfumada!

		Nunca uma noite eu deixe
		De estar a vêr que existes,
		Em quanto me não feche
		O somno os olhos tristes.

		E n’esse largo espaço
		Que te não vejo, espero
		Lhe contes o que eu passo
		N’este aspero desterro:

		Que assim que te não veja
		É noite fria e escura,
		Noite que mette inveja
		Á mesma sepultura!




II. SAUDADE


		Em acordando agora,
		O meu contentamento
		É vêr em cada aurora
		Um dia de tormento!

		Podesse eu dar-te a prova
		Dos dias que me esperam,
		Lançando-me na cova
		Onde elles te pozeram!

		Lançassem-me algum dia
		Ao pé, que de repente
		O coração te havia
		De ainda pular quente…

		A face cobrar logo
		A fórma e côr perdida,
		E a bocca toda fogo
		Ah! inspirar-me a vida!

		Supplíca, ó anjo! implora
		Ao Pai universal
		Que me deixe ir embora
		D’este horroroso val

		De lagrimas amargas,
		E turvas de tal modo,
		Como umas nuvens largas
		Que tapam o céo todo!




III. ETERNIDADE


		Inferno e céo, conforme
		A nossa fé, confesso
		Que é um mysterio enorme,
		É um mysterio immenso.

		Mas um mysterio é tudo:
		Folhinha d’herva, e estrella,
		Não ha comprehendêl-a!
		É contemplal-a mudo.

		E a herva, como existe,
		A mim quem m’o diria,
		Se a luz que me alumia
		Nem sabe em que consiste?

		Mas uma coisa sabe
		O que a cabeça ignora
		– O coração… que mora
		Em peito onde não cabe.

		Ha uma luz mais clara
		Que a luz do pensamento:
		A d’essa imagem cara…
		A d’este sentimento!




IV. … 21 DE SETEMBRO


		Ha uma hora ou mais,
		Marina! que contemplo
		A casa de teus paes
		Que é para mim um templo.

		Está a porta aberta,
		E vejo alumiada
		A parte descoberta
		Da casa da entrada.

		Lá andam a passar
		Do quarto onde acabaste
		Á casa de jantar
		Os vultos, que deixaste.

		Os vultos, que os vestidos
		Tão negros que pozeram,
		De luto, tão compridos,
		Não sei que ar lhes deram!

		A tua bella irmã,
		A tua piedade,
		A rosa da manhã,
		A flôr da mocidade,

		Quem lhe diria a ella,
		Tão cheia de alegria,
		Que haviamos de vêl-a
		Assim já hoje em dia!

		É esta vida um mar,
		E bem se póde a gente,
		Marina! comparar
		A rapida corrente,

		Que vai de lado a lado
		Por esses valles fóra
		Sem nunca lhe ser dado
		Ter a menor demora.

		Pára, quando a engole
		Aquelle mar sem fundo;
		Nem pára; é como o sol
		E como todo o mundo…

		Ahi não pára nada,
		Tudo viaja e anda,
		Que a ordem lhe foi dada,
		E dada por quem manda.

		Chega a corrente lá,
		Engole-a logo a onda:
		Depois, que é d’ella já?
		A nuvem que responda.

		Que a nuvem que nos passa
		Pela manhã nos ares,
		Era hontem a fumaça
		Que andava n’esses mares;

		E a nevoa, que tu vês
		Nas ondas fluctuantes,
		Corria-nos aos pés
		Talvez um dia antes.

		A agua é que no giro
		Em que anda eternamente
		Não deu nunca um suspiro
		Em prova de que sente.

		.....................




N’UM ALBUM



Pedindo-se ao author uma poesia

		Não me admira a mim que o sol, monarcha
		De indisputavel throno, e throno eterno
		Em céo e terra e mar;
		Que em seu imperio o mundo inteiro abarca
		Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno,
		Mavioso olhar.

		Não me admira a mim que a crystallina,
		Tão pura, onda do mar, que espelha a face
		Do astro creador,
		Que essas asperas rochas cava e mina,
		Á praia toda languida se abrace
		E toda amor!

		Mas sendo vós um sêr mais precioso
		Do que onda e sol— um anjo de poesia
		Inspirada e que inspira;
		Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso,
		Delicado penhor descesse um dia
		É que me admira.

		Quizera nos meus cofres de poeta
		Ter as riquezas todas do Oriente,
		E com mãos liberaes
		Expulsar esta duvida que inquieta
		Um grato coração que apenas sente
		E… nada mais!

		De limpido diamante e fio de oiro,
		Quizera-vos tecer collar que á aurora
		Vencesse em brilho e côr;
		Mas o poeta, o unico thesoiro
		Que tem, ah! são as lagrimas que chora
		E o seu amor.

		Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso
		Se amada estrella olhar piedoso envia
		A quem da terra a adora;
		Se o sol aceita á flôr humilde incenso;
		Ha no amor tambem muita poesia…
		Minha senhora!

Evora.




* * *


		Beijo na face
		Pede-se e dá-se:
		Dá?
		Que custa um beijo?
		Não tenha pejo:
		Vá!

		Um beijo é culpa
		Que se desculpa:
		Dá?
		A borboleta
		Beija a violeta:
		Vá!

		Um beijo é graça
		Que a mais não passa:
		Dá?
		Teme que a tente?
		É innocente…
		Vá!

		Guardo segredo,
		Não tenha medo…
		Vê?
		Dê-me um beijinho,
		Dê de mansinho,
		Dê!

		Como elle é dôce!
		Como elle trouxe,
		Flôr!
		Paz a meu seio;
		Saciar-me veio,
		Amor!

		Saciar-me? louco…
		Um é tão pouco,
		Flôr!
		Deixa, concede
		Que eu mate a sêde,
		Amor!

		Talvez te leve
		O vento em breve,
		Flôr!
		A vida foge.
		A vida é hoje,
		Amor!

		Guardo segredo;
		Não tenhas medo
		Pois!
		Um mais na face
		E a mais não passe!
		Dois…

		Oh! dois? piedade!
		Coisas tão boas…
		Vês?
		Quantas pessoas
		Tem a Trindade?
		Tres!

		Tres é a conta
		Certinha e justa…
		Vês?
		E o que te custa?
		Não sejas tonta!
		Tres!

		Tres, sim. Não cuides
		Que te desgraças:
		Vês?
		Tres são as Graças,
		Tres as Virtudes,
		Tres.

		As folhas santas
		Que o lirio fecham,
		Vês?
		E que o não deixam
		Manchar, são… quantas?
		Tres!..




* * *


		Thuribulo suspenso inda fluctuo,
		Em quanto a alma em incenso restituo;
		Mas, quando como fumo que se esvai,
		Minha alma! vás teu rumo… sobe e vai.
		Vai d’estas densas trevas, d’esta cruz,
		Levar-lhe… quanto levas, pobre luz!
		Amor, que em mim não cabe, vai depôr
		Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;
		Se d’outra flôr o calix mais libei
		Por esses quantos valles divaguei;
		Se um nome em igneo traço li no céo,
		Nas ondas e no espaço, mais que o seu…
		Deus sabe se eu dos montes vi tambem
		Nos vastos horisontes mais alguem;
		Nos tristes e risonhos dias meus,
		Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.
		Porém quem é que apanha o aereo véo
		Da nuvem da montanha, se é do céo?
		Se á terra a nuvem desce, quando vai
		Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.

Coimbra.




* * *


		Luz d’intima influencia,
		Oh fugitiva luz!
		Luz cuja eterna ausencia
		É minha eterna cruz.

		Podessem-te, ainda antes
		Do meu extremo adeus,
		Meus olhos fluctuantes
		Vêr lampejar nos céos.

		Se ainda n’esse espaço,
		Tão longe onde tu vás,
		Visse um reflexo baço
		Da pura luz que dás;

		Tornaram-se-me estrellas
		As lagrimas de dôr;
		E lagrimas são ellas…
		Sim, lagrimas d’amor!

		Vê n’esse espaço immenso
		Os astros como estão
		Bem como eu estou, suspenso
		Por intima attracção.

		Porque ha quem os attráia;
		É essa eterna paz
		Que a mim de praia em praia
		A suspirar me traz.

		Converte-me este inferno
		Em azulado céo,
		Ou quebra o laço eterno
		Que a tua luz me deu;

		Ou antes muda em espuma
		De nunca estavel mar
		Esta alma que alma alguma
		Póde exceder em amar.

		Em cinza, em terra, em nada,
		Meu sêr converte, ó luz,
		Mas sempre, sempre amada,
		Deliciosa cruz!

Portimão.




RESPOSTA



A A. DO QUENTAL

		Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
		Para as nuvens do céo, nuvens d’aquellas,
		E parece-me ainda que mais bellas,
		Anda a gente fazendo e desmanchando.

		Dá-me uma saudade em me lembrando
		O bello tempo que passei com ellas,
		Por essa immensa abobada de estrellas,
		Por esse mar de fogo viajando…

		Andasse ainda eu lá, que não me havia
		De vêr por estes charcos atolado,
		Onde nem sol nem lua me alumia.

		Andasse ainda eu lá, desenganado
		Mesmo já como estou de achar um dia
		A patria d’aonde ando desterrado.




* * *


		Pois se o homem, se anjo e nume,
		Planta e flôr,
		Dá seu canto, luz, perfume,
		Crença e amor;

		Pois se tudo sobre a terra
		Que ame alguem,
		Rosa ou espinho, quanto encerra
		Dá, se o tem;

		Se os carvalhos, nus, medonhos,
		Veste abril;
		Se inda a noite presta aos sonhos
		Graças mil;

		Se onde ha ramo, voz uma ave
		Desprendeu;
		Se onde ha folha, gotta suave
		Cahe do céo;

		Se na praia, quando a onda
		Vem de lá,
		Beijos, antes que se esconda,
		Mil lhe dá;

		Tambem, anjo meu saudoso!
		Te hei de emfim
		Ah! dar quanto de precioso
		Sinto em mim!

		Dou-te o nectar, que me acalma;
		Toma-o tu!
		Sim, meu pranto; mais uma alma
		Que eu possuo!

		Dou-te os sonhos meus ardentes,
		Mas leaes;
		Dou-te as notas mais cadentes
		Dos meus ais!

		Do que ha lindo, tudo quanto
		Me seduz;
		D’esta vida, riso e pranto,
		Noite e luz!

		Dou-te o genio meu, que á sorte
		Vês fluctuar
		Sem mais véla, sem mais norte
		Que esse olhar!

		Dou-te a lyra, que me inspiras,
		Sonho meu!
		Que suspira, se suspira,
		Flôr do céo!

		Dou-te; aceita: tudo é santo,
		Tudo, flôr!
		Dou-te uma alma toda encanto,
		Toda amor!

V. Hugo.

Coimbra.




FLÔR E BORBOLETA


		Tu vôas, borboleta! e que eu não possa
		Voar, amor!
		Diversa como é n’isto sorte nossa!
		Dizia a flôr.

		No valle, ambas irmãs, nascidas fomos;
		És como eu sou;
		E amamo-nos, e flôres ambas somos,
		Mas eu não vôo.

		A ti leva-te o ar; prende-me a terra
		A mim; e eu
		Como hei-de perfumar-te em valle e serra,
		E lá no céo!…

		Mais longe inda tu vás, por outras flôres…
		Girar, talvez,
		Em quanto a minha sombra, meus amores!
		Gira a meus pés!

		E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora,
		Sabendo, assim,
		Que em lagrimas me encontra sempre a aurora!
		Pobre de mim!

		Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro
		E meu amor!
		Cria raiz ou dá-me as azas de oiro,
		Celeste flôr!

V. Hugo.

Coimbra.




REMOINHO


		Olha como embrulhado
		Que está ainda o céo
		E o chão, como ensopado
		Da agua que choveu…

		Foi um diluvio d’agua;
		E o furacão, que fez,
		Emilia! até dá mágoa
		Tantos estragos: vês?

		Esta infeliz víuva,
		Foi-lhe o telhado ao ar;
		Depois, já nem da chuva
		Tinha onde se abrigar.

		De mais a mais sósinha,
		Sem ter nenhum dos seus
		Aqui ao pé; ceguinha…
		Bemdito seja Deus!

		Além n’aquelle serro
		Parece que raspou
		Com uma pá de ferro
		A terra que encontrou.

		Nem um só pé de trigo
		És lá capaz de vêr.
		Já eu disse commigo:
		Como póde isto ser?

		As arvores arranca
		O vento muito bem;
		Serve-lhe de alavanca
		A rama que ellas tem.

		Vem de lá elle e, topa
		N’uma arvore, o que faz?
		Enrola-se na copa
		E, tronco e tudo, zás!

		Que as folhas não são nada,
		Uma por uma, não;
		Mas já uma pernada…
		Tão poucas ellas são?

		Vê lá se o teu cabello
		É para comparar;
		Mas, possa alguem sustel-o,
		Levanta-te no ar.

		Aqui um loureirinho,
		Que era o que havia só,
		Encontra-o no caminho,
		Ia-o fazendo em pó.

		D’aqui passa, á maneira
		Assim d’um caracol,
		Áquella farrobeira
		Põe-lhe a raiz ao sol.

		Aquelle enorme tronco
		Quiz resistir, depois,
		Ouviu-se um grande ronco,
		Quando o eu vejo em dois.

		Andava a rama toda,
		Emilia! assim, vês tu?
		Á roda, á roda, á roda,
		Eis senão quando, rhuh!

		Foi quando veio o outro
		Urrando como um boi,
		Oh que horroroso encontro!
		Então é que ella foi.

		Vês uma cobra enorme
		Á calma, quando está
		Grande calor, conforme
		As tenho visto já?

		Que não tem ar avonde,
		Falta-lhe já o ar,
		Quer sangue ou agua onde
		Se possa refrescar;

		Anceia-se, sacode
		O corpo todo a vêr
		Se vôa, mas não póde;
		Voar não póde ser;

		E como não supporta
		Já o calor do chão,
		Ao vêr-se quasi morta
		De raiva e afflicção,

		Apenas finca a ponta
		Do rabo em terra, e sái;
		E faça-se de conta
		Que é a voar que vai

		N’aquellas roscas todas
		Que, olhando-se-lhes bem,
		São outras tantas rodas
		Em cima d’onde vem;

		N’aquelle parafuso
		– Aquelle rodopio,
		Á roda como um fuso
		Suspenso pelo fio;

		Com a cabeça chata,
		Aquelle olhar feroz,
		Aquelle olhar que mata
		Sempre de fito em nós?

		Assim d’essa maneira
		É que elle vinha, o tal;
		Salta-lhe á dianteira
		Este de força igual;

		E assim que se avistaram,
		Não sei o que lhes dá;
		Ficam suspensos, param,
		Como com medo já;

		Aquelles sorvedouros,
		Em vez de remoinhar,
		Parecem-se dois touros
		Jogando a terra ao ar;

		Ouvia-se a oliveira
		Zunir no ar, então,
		D’um para o outro inteira,
		Nem bala de canhão;

		E assim se vão chegando
		Cada vez mais, até
		Que eu ólho, eis senão quando
		Vejo… mas vejo o que?

		. . . . . . . . . . . . . . .

Messines.




AMORES, AMORES…


		Não sou eu tão tola
		Que cáia em casar;
		Mulher não é rola,
		Que tenha um só par:
		Eu tenho um moreno,
		Tenho um de outra côr,
		Tenho um mais pequeno,
		Tenho outro maior.

		Que mal faz um beijo,
		Se apenas o dou
		Desfaz-se-me o pejo,
		E o gosto ficou?

		Um d’elles por graça
		Deu-me um, e depois,
		Gostei da chalaça,
		Paguei-lhe com dois.

		Abraços, abraços
		Que mal nos farão?
		Se Deus me deu braços,
		Foi essa a razão.
		Um dia que o alto
		Me vinha abraçar,
		Fiquei-lhe d’um salto
		Suspensa no ar.

		Amores, amores.
		Deixál-os dizer;
		Se Deus me deu flôres,
		Foi para as colher.
		Eu tenho um moreno,
		Tenho um de outra côr,
		Tenho um mais pequeno,
		Tenho outro maior.




FABULA


		Um dia os deuses, cada qual uma arvore,
		Á sua guarda consagraram: Jupiter
		Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules
		Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo.
		Vendo-as Minerva todas infructiferas:
		Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe:
		Senão, diriam, filha! que as guardavamos
		Só pelo fructo.– Que me importa digam-no;
		É pelo fructo que a oliveira escolho.

		Minerva! brada o pai d’homens e deuses,
		És quem, de todos, sabes mais sem duvida;
		No que não luza… mal fundada gloria.

		Honra sem proveito
		Faz mal ao peito.

Phedro.

Coimbra.




BOAS NOITES


		Estava uma lavadeira
		A lavar n’uma ribeira,
		Quando chega um caçador.

		– Boas tardes, lavadeira!

		– Boas tardes, caçador!

		– Sumiu-se-me a perdigueira
		Alli n’aquella ladeira,
		Não me fazeis o favor
		De me dizer se a bréjeira
		Passou aqui a ribeira?

		– Olhai que d’essa maneira
		Até um dia, senhor,
		Perdereis a caçadeira,
		Que ainda é perda maior.

		– Que me importa, lavadeira!
		Aqui na minha algibeira
		Trago dobrado valor.
		Assim eu fôra senhor
		De levar a vida inteira
		Só a vêr o meu amor
		Lavar roupa na ribeira…

		– Talvez que fosse melhor,
		Vêr… coser a costureira!
		Vir, de ladeira em ladeira,
		Apanhar esta canceira
		E tudo só por amor
		De vêr uma lavadeira
		Lavar roupa na ribeira…
		É escusado, senhor!

		– Boas noites… lavadeira!

		– Boas noites, caçador!..

Messines.




GASPAR


		Ora se não sei eu quem foi teu pai!
		Fidalgo: sei perfeitamente bem.
		O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
		N’esta vida fazer quem já lá vai.

		Já se vê que é aos paes que a gente sái.
		Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
		Que um pai se é como o teu, homem de bem,
		Tu és homem de bem como teu pai?

		D’isto não ha quem possa duvidar.
		Mas queres um conselho que eu te dou?
		Não mexas n’isso… cala-te, Gaspar!

		Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou,
		Mas é que outro talvez mande tirar
		Certidão de baptismo a teu avô.

Coimbra.




* * *


		Deixa que ao romper d’alva o cravo abrindo,
		Á rosa envie o aroma;
		E lá quando alta noite a lua assoma,
		O rouxinol carpindo!

		Que pela face a lagrima resvale
		De quem no exilio geme;
		E quando a propria sombra o homem teme,
		Que a mãi seu filho embale.

		Deixa que ao espaço immenso os olhos lance
		O sol antes que expire;
		Que pelo norte a bussola suspire
		E nelle só descance.

		Amam leões e tigres. Não ha nada,
		Anjo! que a amor se esconda.
		Beija a pomba o seu par; e abraça a onda
		A rocha inanimada.

		Deixa que a nuvem negra tolde a lua
		Se a leva a tempestade;
		Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
		D’esta alma toda tua!

Coimbra.




CARTA


		Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
		Olhando para mim de vez em quando,
		É o que n’esta vida me recreia.

		Acordo até de noite suspirando
		Por que rompa a manhã e tenha o gosto
		De te vêr já tão cedo trabalhando.

		Desde pela manhã até sol-posto
		Que não tens de descanço um só momento;
		Por isso tens tão bella côr de rosto.

		E eu pallido, Maria! O pensamento
		Não é trabalho que nos dê saude,
		Esta imaginação é um tormento.

		Que bello tempo aquelle em quanto pude
		Levar, como tu levas, todo o dia
		N’essa vida chamada ingrata e rude!

		Nunca soube o que foi melancolia,
		Nunca provei as lagrimas salgadas
		Com que a nossa alma as penas allivia;

		Andava sim por essas cumiadas
		Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho,
		Vendo os valles, das rochas escarpadas;

		Descendo pelo córrego estreitinho,
		De pontal em pontal, cortando o matto,
		Pelas chapadas, fóra de caminho;

		Mas não era que já o teu retrato
		Me andasse a mim no coração impresso,
		Onde hoje o trago no maior recato,

		E um desengano teu que não mereço
		Me tivesse tirado a fé tão dôce
		D’alcançar algum dia o que appeteço.

		Não foi, não, a paixão que assim me trouxe
		Tão erradio a mim, digo a verdade
		E nem eu te negava se assim fosse.

		É que a gente na sua mocidade
		Não cabe em si, não pára de contente,
		E assim fui eu na flôr da minha idade.

		Tu eras n’esse tempo simplesmente
		A flôr que vai nascendo e mais valia
		Seres tão tenra ainda e innocente.




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